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NELSON TRIUNFO:

Do Sertão ao Hip-Hop

O livro apresenta a trajetória artística e de vida de Nelson Gonçalves Campos Filho, mais conhecido como Nelson Triunfo. O trabalho também inclui ricas informações sobre o desenvolvimento dos bailes de soul e funk nos anos 1970 e da cultura hip-hop no Brasil.

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O que você encontrará nesse livro?

Exemplo de vida

A história de Nelson Triunfo nos dá grandes lições de vida, persistência e cidadania.

Cultura nordestina

Suas influências vão de coco a embolada, frevo, forró, literatura de cordel e muito mais.

Do soul ao hip-hop

Um ícone desde os shows de funk e soul dos anos 1970 à cultura hip-hop dos dias atuais.

Cultura de rua

Este livro promete suprir parte da carência de registros históricos sobre cultura hip-hop.

O hip-hop que (re)educa

Nelsão também foi pioneiro no uso do hip-hop como instrumento de educação alternativa.

Reflexões sobre cidadania

“Nelson Triunfo é um ótimo reflexo para a gente se mirar no espelho da vida” (Oswaldo Faustino).

Vídeos com Nelson Triunfo

Nelson Triunfo: Do Sertão ao Hip-Hop

Ao longo de décadas, Nelson Triunfo foi pauta de diversas reportagens televisivas. Confira esta, exibida no extinto programa A Noite é uma Criança (TV Band, 2011).

Veja o lançamento do livro

Uma grande roda de dança improvisada nas ruas do centro de São Paulo relembrou o que Nelson Triunfo fazia há exatos 30 anos, no início do hip-hop no Brasil.

Conheça um pouco mais sobre o livro

Confira, abaixo, os cinco subtítulos da introdução do livro, trecho intitulado “Um matuto na Alemanha”.

I. Berlim, mais uma vez!

       Ele estava em Berlim pela segunda vez na vida e o motivo de uma viagem não estava diretamente relacionado ao da outra. Mesmo assim, não interpretava aquilo como coincidência. Começou até a acreditar que algum tipo de magnetismo o conecta à Alemanha.

       Aportara pela primeira vez naquele mesmo lugar treze meses antes e agora, em uma tarde quente de junho de 2007, em pleno verão europeu, Nelson Triunfo estava de volta à capital alemã. Agora já se sentia bastante à vontade para percorrê-la do lado oriental ao ocidental, da Alexanderplatz (ou praça Alexander) ao zoológico Tierpark, do bairro jovem Kreuzberg à vida noturna de Prenzlauer.

         Sozinho em mais um dia calorento e de calendário livre para passeios, Nelsão saiu cedo do hotel e comprou um tíquete de transporte que o permitia fazer quantas viagens quisesse, durante o dia todo, fosse de trem, metrô ou ônibus. estava hospedado no Hotel Ibis Berlin Mitte, a cerca de quinhentos metros da praça Alexander, no centro oriental da cidade. De lá jogava-se em qualquer ônibus ou trem e seguia para destino desconhecido, a explorar e admirar lugares cujos nomes nem se lembraria depois.

         – Êta, mas é cada nomezinho complicado! uns com umas vinte letras e as palavras tudo emendadas – brincou consigo mesmo, ao mirar nos letreiros dos ônibus nomes como Waldschluchtpfad, Rauchfangswerder ou Hohenschönhausen.

         Aquilo o fez refletir sobre as diferenças culturais, a começar pelo idioma. Imaginou que para os alemães, Tiquatira, nome do bairro em que residia desde 1984 na região da Penha, na zona leste de São Paulo, também devesse soar estranho.

         Nelsão se encantou com a praça Alexander. Aos pés dos 368 metros da Fernsehturm, a formosa torre de televisão construída naquela praça no final da década de 1960, admirou a água a jorrar no Neptunbrunnen, fonte esculpida em 1891 que tem uma representação do deus romano Netuno entre quatro mulheres que simbolizam os rios Elba, Reno, Vístula e Oder. Também ficou impressionado com o imponente Rotes Rathaus, suntuoso prédio avermelhado construído na década de 1860, que abriga a Prefeitura e o Senado, e com o Weltzeituhr, o “relógio mundial” que mostra as horas em várias cidades do planeta. Ao retorno de um de seus passeios, perto das onze horas, consultou-o e constatou que eram seis da manhã em São Paulo.

         – A Heloisa e os meninos já devem tá acordando – balbuciou para si mesmo, imaginando a esposa a preparar o café da manhã e os rostos ainda sonolentos de seus filhos Jean e Andrinho.

         Durante todo o dia seguiu para diferentes cantos da cidade, maravilhado com a arquitetura das construções seculares, a modernidade dos prédios recém-erguidos, as ruas arborizadas e os muitos parques e monumentos de Berlim. Segunda cidade mais populosa da Europa, com quase três milhões e meio de habitantes, a capital alemã abrigava na época quase quinhentos mil estrangeiros oriundos de mais de 180 países, que davam um colorido especial ao vaivém urbano.

         Nelsão adorava o que via. Nos tantos trens e ônibus pelos quais vagou, nas muitas avenidas e praças por onde andou, surpreendeu-se ao ver muitos pretos, asiáticos e árabes em meio a tantos louros de pele rosada e olhos claros, num convívio aparentemente sadio.

         De certa forma aquela miscelânea racial e cultural o fazia lembrar-se de São Paulo, cidade que adotara como lar havia exatos trinta anos. E, quando precisava pedir alguma informação, misturando um pouco de inglês com algumas palavras que aprendera do idioma alemão, era atendido com cordialidade. “Amo Berlim!”, pensou, sorrindo sozinho em suas idas e vindas pela cidade. Perto de completar cinquenta e três anos de idade, sentia-se como uma criança a desbravar um pomar carregado. Com a diferença que, dessa vez, não precisaria temer os tiros de sal que tanto o castigaram, durante a infância, em bananais, jabuticabeiras e canaviais alheios.

         O que também enchia os olhos de Nelsão era a atmosfera cultural de Berlim, com seus 180 museus e 135 teatros. Um deles, o imponente Volksbühne, ou Teatro do Povo, tinha significado muito especial. Afinal, dessa companhia de teatro partira o novo convite para que fosse à Alemanha. Estava lá para participar como ator da peça Im Dickicht der Städte (Na Selva das Cidades), de Bertolt Brecht, a convite do renomado diretor alemão Frank Castorf. Teatro estatal que pertenceu à Alemanha oriental antes da queda do muro de Berlim e da reunificação do país, o Volksbühne se tornou uma das principais instituições teatrais da Europa e vinha sendo dirigido por Castorf desde 1993.

         O belo teatro localizado na praça Rosa-Luxemburg, no curto trecho entre o hotel e a praça Alexander, era o “quartel-general” daquela equipe tão agradável que, um ano antes, Nelsão tinha conhecido no Brasil.
 

II. Da Copa da Cultura ao teatro

Torna-se válido recapitular como se iniciou a relação de Nelson Triunfo com a Alemanha, no ano anterior.

         Desembarcou em Berlim pela primeira vez no dia 26 de maio de 2006, acompanhado de uma versão reduzida de seu grupo Funk & Cia formada pelos b-boys Guinho, Zóio e Joul, que também é MC. A convite do então ministro da Cultura Gilberto Gil, no dia seguinte eles já se apresentariam como uma das atrações da Copa da Cultura.

         O espírito do evento, que antecedeu a Copa do Mundo de futebol, tinha muito a ver com a trajetória multicultural de Nelsão. Sua proposta era reunir as mais diversas manifestações artísticas dos trinta e dois países participantes da principal competição de futebol do mundo.

         Eclético por natureza e um eterno curioso no campo da arte, o pernambucano que construiu sua trajetória como dançarino, músico, coreógrafo, ator e educador social sentia-se como um jogador de futebol convocado para defender a seleção brasileira, tal a importância conferida àquele convite. Em seu peito misturavam-se o orgulho de ter sido designado para aquela missão e a responsabilidade de fazê-lo diante de ouvidos e olhos de todo o mundo.

         De fato, ser escolhido para representar um país de dimensões continentais e grande riqueza cultural em um evento daquele porte, mesmo praticando um tipo de arte que sempre fora discriminado e ainda era mantido distante dos holofotes da chamada grande mídia, tinha sabor de coroação. se nos campos de futebol o Brasil teria nomes como Cafu, Roberto Carlos, Kaká, Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho, na Copa da Cultura também haveria uma seleção de peso. No campo da música, além de Nelson Triunfo e Funk & Cia, o Brasil levou à Alemanha nomes como Afroreggae, Arnaldo Antunes, Elba Ramalho, Elza Soares, Gilberto Gil, Instituto, Jorge Ben Jor, Margareth Menezes, Mart’nália, Nação Zumbi, Naná Vasconcelos e Sandra de Sá, entre outros. Também houve representantes de dança, literatura, teatro, cinema e artes plásticas.

         O show de Nelson Triunfo e Funk & Cia foi realizado na Haus der Kulturen der Welt, a Casa das Culturas do Mundo, e durou cerca de uma hora. Nelsão cantou, dançou e conversou com o público, com a ajuda do intérprete Cláudio (um brasileiro que residia em Berlim havia doze anos), mas também arriscou algumas palavras em inglês e arranhou algo em alemão.

         Apesar de não terem ensaiado uma apresentação específica para a ocasião, todos tiveram desempenho muito satisfatório. Zoio e Guinho esbanjaram técnica nos passos de breaking, o que incluiu difíceis movimentos de chão, como rodopios, saltos mortais e giros de cabeça que desafiam as leis da física. Joul dividiu o microfone com Nelsão e também se aventurou a dançar um pouco. Todos trajavam roupas com as cores da bandeira brasileira, enquanto um telão exibia imagens das belezas naturais de todo o Brasil e da diversidade étnica do povo verde-amarelo. A performance terminou em clima de grande festa, com os espectadores, incluindo turistas de várias partes do mundo, a se misturar aos artistas em uma grande e democrática roda de dança soul.

         Essa primeira experiência de Nelsão na Alemanha durou breves três dias. Uma passagem rápida, mas muito gratificante, que já o fez apaixonar-se por Berlim e maravilhar-se com a troca de valores culturais proporcionada pela experiência. Quando seguia para o aeroporto a fim de embarcar de volta para o Brasil ouviu pela primeira vez, em uma rádio local, a música “Mas que nada”, do pianista brasileiro Sérgio Mendes, na versão rap feita em parceria com will.i.am, do grupo norte-americano Black Eyed Peas. O motorista informou que a música já era sucesso na Alemanha havia alguns dias. No Brasil, Nelsão, Zóio, Guinho e Joul ainda nem tinham ouvido falar daquela versão.

         – Como é que pode, Man? A música de um brasileiro já faz sucesso na rádio da Alemanha e ainda nem chegou lá no Brasil! – observou Nelsão.

         Já de volta a São Paulo, cerca de dois meses depois dessa viagem, Nelson Triunfo soube de um teste para uma peça teatral e alguma intuição o deixou tentado a participar. Uma companhia alemã queria selecionar dois atores brasileiros para se unirem ao seu elenco, a fim de excursionar pelo Brasil com a peça Na Selva das Cidades. Extrovertido, comunicativo e com seu visual irreverente, o pai do hip-hop brasileiro, como é conhecido, facilmente caiu nas graças do diretor Frank Castorf e foi um dos escolhidos, ao lado da atriz Sandra Santos.

         Enigmático, o texto de Brecht é ambientado em Chicago no ano de 1912 e trata de conflitos humanos no seio de uma família que migra das savanas para a cidade grande – a “selva” de concreto –, representados pela luta entre um madeireiro e um funcionário de biblioteca. Na montagem de Castorf, uma espécie de humor nonsense, a história não tinha lugar ou época definidos. Nelsão interpretou o personagem John Garga, alternando o português de suas falas com o alemão do restante do elenco – o público brasileiro acompanhou os diálogos por meio de legendas. Bastante elogiada pelos críticos, a peça foi apresentada entre agosto e setembro de 2006 em seis cidades: São Paulo e Santos, no estado de São Paulo; Guaramiranga e Fortaleza, no Ceará; além de Brasília e Salvador.

            E foi com o propósito de mostrar Na Selva das Cidades para o público alemão com aquele formato abrasileirado que o diretor convidou Nelson Triunfo para retornar a Berlim, em junho do ano seguinte, e emprestar seu talento ao palco do Teatro do Povo.

III. A montanha imaginária

         O clima era de comemoração, já que tudo transcorrera bem com as apresentações. No palco bem iluminado e de boa acústica, o elenco tivera desempenho impecável, arrancando aplausos do exigente público alemão. Até o diretor Frank Castorf, que muitos consideravam um sujeito carrancudo e rigoroso, se mostrara radiante e bem humorado naqueles dias.

         Rodeado por uns quinze artistas extasiados, com os quais acabara de contracenar com sucesso, Nelson Triunfo era o centro das atenções em uma lanchonete anexa ao teatro. Frente a garrafas de diferentes formatos, aperfeiçoava seus conhecimentos sobre os bons vinhos, prática iniciada com aquelas mesmas pessoas, um ano antes, na turnê da peça pelo Brasil. Aprendera a degustar a bebida e a apreciar detalhes como aroma, qualidade de uva, safra e outros aspectos.

         De uma garrafa escura com a inscrição Black Tower no rótulo, presente de um dos animados anfitriões, serviram-lhe uma taça de vinho branco alemão elaborado com uvas da variedade Müller-Thurgau. em pé, lentamente Nelsão ergueu a taça. Aproximou-a dos olhos, fez umas caretas e começou a cadenciar movimentos ritmados e alegóricos, como se estivesse em um ritual. Os alemães fizeram silêncio e, curiosos, fixaram os olhos no convidado, que prosseguiu com o inusitado rito. Após a breve cerimônia, ele reservou uma pequena quantidade de vinho na boca. Fechou os olhos, prendeu a respiração e engoliu. Enigmático e cômico ao mesmo tempo, voltou a respirar aos poucos, ainda fazendo caras e bocas como se acordasse de um transe. Em suspense, todos aguardavam que Nelsão dissesse algo, mas ele permaneceu em silêncio, com olhar misterioso, a fitar uma parede distante.

         – So... did you like the wine? (“Então... você gostou do vinho?”) – irrompeu um ator alemão, impaciente.

         Mais teatral impossível: Nelsão gesticulou, apontando para as paredes sem janelas da lanchonete, correu um horizonte imaginário com os olhos e respondeu, em um alemão de pronúncia caricata:

         – Schauen den Berg... ist hoch (“Veja a montanha... é alta”)!

         Os alemães caíram na gargalhada com a frase inesperada e se derramaram em aplausos. Sem querer, o brasileiro tinha improvisado uma piada. e nesse clima divertido de confraternização se encerrou aquela noite, marcante na memória de Nelson Triunfo e, certamente, na de seus amigos do Volksbühne.

         Antes de voltar para o Brasil, depois de quase um mês na Alemanha, além de muitos beijos e abraços daqueles calorosos artistas e agentes culturais, Nelsão ganhou três garrafas de vinho. Uma delas avaliada em quase quatrocentos euros, presenteada por uma das chefes do Volksbühne, Yana Ross – uma simpática teatróloga russa de trinta e quatro anos cujo currículo já incluía passagens por Nova York e Vilnius, capital da Lituânia.

         – Ich liebe dich (“eu amo você”)! – repetiu ela, diversas vezes, fazendo-o memorizar mais uma frase em alemão.

            As garrafas de vinho eram uma espécie de “cartilha” para o aspirante a enólogo, que começou a distinguir as variadas qualidades de uva, com preferência para Cabernet Sauvignon, Carménère e a combinação Syrah-Bonarda. O próprio Nelsão ainda compraria outras quatro garrafas para colocar na mala, incluindo uma de Black Tower, junto com algumas recordações e presentes para Heloisa, Jean e Andrinho.

IV. Tapioca e 'Bin Laden'

         De Berlim, Nelson Triunfo embarcou no voo de volta para o Brasil, mas ainda faria escala em Munique. Ao menos era a chance de conhecer mais uma cidade da Alemanha, mesmo que se limitasse ao aeroporto Franz Josef Strauss – no ano anterior, a escala fora em Frankfurt. Feliz com a experiência que vivera nos últimos dias, seguia sem pressa, sem preocupações, grato por mais uma oportunidade de visitar aquele agradável país que já começava a lhe inspirar saudades.

         Depois de ter passado vergonha em um cômico episódio no voo de ida para Berlim, agora sabia que o serviço de bordo da Lufthansa não serve tapioca. A hilária cena assim se dera: a caminho da Alemanha, Nelsão dormia pesado em pleno voo. Em dado momento, acordou com uma comissária de bordo a lhe oferecer, com delicada pinça metálica, uma massa branca, enrolada, quente e esfumaçante, com formato semelhante ao de uma tapioca. Estava faminto e ainda meio grogue de sono e, sem pestanejar, deu uma abocanhada das grandes, com vontade. Só então sentiu o gosto da toalha quente a preencher-lhe a boca e se deu conta de que todos os passageiros ao seu redor desenrolavam a tal “tapioca” para limpar as mãos e o rosto. Depois disso, passaria boa parte do voo rindo de si mesmo, chegando até mesmo a ter espasmos de solitária gargalhada, o que estimulava os passageiros mais próximos a imaginar que ele fosse louco.

         Quando o avião pousou em Munique, Nelsão não ficou afoito para ser o primeiro a deixar a aeronave, como a maioria dos passageiros. Com todo o tempo do mundo, desafivelou o cinto de segurança, ajeitou seu assento e colocou um par de óculos escuros que comprara em Berlim. Dos pés ao peito, conferiu se estava tudo conforme sua vaidade exigia. Com seu visual único, mantinha a enorme cabeleira presa em uma touca semelhante à que os jamaicanos usam para conter seus dreadlocks e trajava suas habituais roupas largas e coloridíssimas. Esperou os corredores se esvaziarem para, só então, com muita calma, pegar sua bagagem de mão e sair.

         Enquanto descia a escada notou que, ao lado do avião, havia dois ônibus que conduziriam os passageiros até o terminal, que ficava a algumas centenas de metros dali. Como um já estava quase cheio, optou pelo segundo. Mesmo assim fez questão de ser o último a entrar. Já no interior do ônibus, observou ao seu lado um homem estranho, meio maltrapilho, de pouco mais de um metro e sessenta de altura. Trajava jaqueta e calça um tanto surradas, que até tinham alguns rasgos, e calçava tênis bastante sujos. “Deve ser um punk, um anarquista, algo assim”, pensou, descontraído.

         Ao descer do ônibus e se preparar para colocar os pés no aeroporto, Nelsão viu o maltrapilho caminhar em sua direção. Logo pensou que ele lhe pediria algo.

         O homem, então, colocou a mão por dentro da jaqueta, sacou um distintivo e identificou-se. Era um agente de polícia a paisana.

         – Excuse me, sir. Let me see your passport, please (“Com licença, senhor. Deixe-me ver seu passaporte, por favor”) – abordou-o o policial, num inglês seco, sonoro e meio arrastado, certamente por conta do sotaque alemão.

         – What is happening, man? (“O que está acontecendo?”) – perguntou Nelsão, de passaporte na mão.

         Em tom intimidador, o agente perguntou o motivo de sua viagem para a Alemanha, enquanto analisava o documento. Pego de surpresa, num primeiro impulso Nelsão imaginou que poderia ter problemas com as sete garrafas de vinho que estavam embrulhadas em peças de roupa suja dentro da mala que fora despachada. Mas manteve a calma e apenas respondeu, em inglês:

         – I am a Brazilian artist... actor and dancer... I am coming from Berlin’s theater... Bertolt Brecht... Frank Castorf... (“Sou um artista brasileiro... ator e dançarino... estou vindo do teatro de Berlim [...]”).

         Quando folheou o passaporte de capa verde e notou que estava diante de um brasileiro, o policial adotou um tom mais cortês. feita a checagem, logo liberou o “suspeito”.

         – Vielen Dank – agradeceu Nelsão, em alemão, ao recolher seu passaporte.

         Quando olhou para o lado, percebeu que mais três agentes, altos e fortes, cada um com um pastor alemão a tiracolo, tinham observado toda a abordagem e ainda o encaravam. Supôs que, como estava um pouco barbado e mantinha o enorme cabelão preso em uma touca, era até compreensível que seu visual chamasse a atenção.

         – Esse baixinho invocado deve ter me achado parecido com o Osama Bin Laden – disse para si mesmo, rindo sozinho, enquanto aguardava para embarcar de Munique para São Paulo.

            Dali a pouco mais que doze horas, calculou, estaria de volta ao aconchego de seu lar e aos braços de sua família.

V. Triunfo, sinônimo de vitória

         Já no voo de volta, após comer algo e cochilar um pouco, Nelsão pediu uma garrafinha de vinho tinto seco, colocou os fones de ouvido e começou a fuçar os vinte e um canais de rádio disponíveis no avião. encontrou um que tocava rap e achou a fala do cantor parecida com árabe. Na tela instalada no dorso da poltrona à sua frente, observou um mapa que indicava a exata localização do avião. Naquele momento sobrevoava Marrocos, no noroeste do continente africano, pouco abaixo do estreito de Gibraltar.

         O serviço de bordo tinha acabado de servir uma toalha quente para os passageiros, e agora Nelsão sabia que ela não era uma tapioca, mas sim servia para limpar as mãos e o rosto.

         Depois de escutar o rap e um soul cantados em idioma que não soube identificar,  Nelsão reconheceu o som de violino nos primeiros acordes da música seguinte: “It’s a man’s man’s man’s world”, de James Brown, um de seus maiores ídolos.

         Naquele momento um turbilhão de ideias e imagens passou a povoar sua cabeça, enquanto aquela canção despertava nele um tipo de emoção diferente. Refletiu profundamente sobre como aquele músico tinha mudado sua vida e lamentou seu falecimento, ocorrido seis meses antes, algo que jamais conseguiria digerir por completo. Até então, passara metade de um ano tentando enganar a si mesmo, evitando pensar na perda de seu maior ídolo, que tivera a honra de conhecer pessoalmente. Agora, seus olhos lacrimejavam.

         Pela janela, até onde sua vista alcançava, a paisagem se resumia a uma imensa área descampada à beira da costa africana do oceano Atlântico, com alguns mirrados pontos de vegetação distribuídos ao longo de terras áridas.

         – Essa é a África! – refletiu, emocionado.

         Só tinha chorado duas mortes mais que a de James Brown: a de seu filho Nathan, que falecera com um dia de vida em 1986, e a de sua mãe Carmelita, em 1988 – na época, sem poder ir ao Nordeste a tempo de acompanhar o sepultamento da própria genitora, sentiu-se impotente e desamparado. Abatido, só lhe restara chorar um dos maiores infortúnios que a vida lhe reservara.

         Sozinho na poltrona daquela aeronave, agora Nelsão tinha sua cabeça bombardeada por esses e outros pensamentos sobre tudo o que vivera até então – e de alguma forma seus valores estavam conectados entre si: o amor à família, a importância de James Brown em sua vida, o significado cultural e espiritual da cabeleira black power, o orgulho negro, a emoção de sobrevoar a África, o soul, o hip-hop, a raiz nordestina, a vida construída no Tiquatira, o magnetismo que tinha com Berlim, os intercâmbios culturais, a eterna desconfiança da polícia...

         Junto a essas ideias, passou a recapitular diversas passagens de sua vida, enquanto as lágrimas até então dedicadas a James Brown começavam a ser motivadas por uma gostosa sensação de superação e missão cumprida.

         Dono de boa memória, viu flashes de momentos marcantes de sua vida, acumulados em mais de cinco décadas bastante atribuladas. Tomado por forte emoção, fechou os olhos e avistou-se, ainda criança, a correr por Triunfo entre preás e croatás, sobretudo nos campos do sítio Caldeirão, onde viveu boa parte de sua infância. Recordou a adolescência, quando deixou o sertão pernambucano e foi de pau-de-arara para Paulo Afonso, na Bahia, onde conheceu o soul e formou sua primeira equipe de dança, Os Invertebrados. Lembrou-se das andanças pelo Distrito Federal e pelo Rio de Janeiro, da mudança para São Paulo em dia de garoa, da criação dos grupos de dança Black Soul Brothers e Funk & Cia, das incontáveis botinadas que levara da polícia na época em que dançava nas ruas e do preconceito que sempre enfrentou por ser nordestino, ostentar uma enorme cabeleira black e vestir roupas diferentes. Transportou-se, ainda, para as rodas de dança que inaugurara nas ruas do centro de São Paulo, para a estação São Bento do metrô – onde ajudara a plantar a semente da cultura hip-hop brasileira – e para os vários anos de militância cultural e de trabalhos socioeducativos na Casa do Hip-Hop de Diadema, onde novas mudas seguiam sendo cultivadas.

         Tudo se conectava. Tudo era um ciclo metamórfico de releitura, renovação e continuidade.

         Olhou novamente pela janela e notou que a África tinha ficado para trás. Nenhuma nuvem habitava o céu que o cercava. Viu-se a sobrevoar o meio do oceano e, num mágico capricho da natureza, percebeu que mal conseguia distinguir, naquela imensidão azul que o rodeava, qual era o exato ponto do horizonte em que céu e mar se beijavam. Naquele momento, ter o ídolo James Brown nos ouvidos, a porção africana do Atlântico nos olhos marejados, a Alemanha na memória recente e o Brasil no coração fazia Nelsão se sentir um pleno vencedor. A frase “Triunfo, sinônimo de vitória”, que ele vivia repetindo em alusão à sua cidade e ao seu nome artístico, nunca fizera tanto sentido.

         Matuto desacreditado, menosprezado e ridicularizado por alguns, e combatido por tantos outros durante várias décadas, ele agora voltava para casa após ter sido aplaudido no palco de um dos principais teatros de Berlim, superando barreiras geográficas, étnicas e de idioma.

         – Já fui Nelsinho de seu Nelson, hoje Triunfo ou Nelsão! – refletiu, ao se lembrar de um verso autobiográfico que escrevera três anos antes, em 2004, em sua participação na música “Influências”, do grupo de rap Matéria Rima.

         Até a chegada a São Paulo, Nelsão continuaria a ver o filme de sua vida sendo projetado dentro de sua cabeça, com as mesmas emoções, cores, aromas e sensações das diversas andanças que tinham ficado armazenadas em sua memória.

            E que andanças! 

Escolha um trecho

  • I. Berlim, mais uma vez!

    - Ele estava em Berlim ...
  • II. Da Copa da Cultura ao teatro

    - Torna-se válido ...
  • III. A montanha imaginária

    - O clima era de ...
  • IV. Tapioca e 'Bin Laden'

    - De Berlim, Nelson ...
  • V. Triunfo, sinônimo de vitória

    - Já no voo de volta ...

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O livro possui 368 páginas + 16 páginas de fotos

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Fotos

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Invertebrado

Em Paulo Afonso (BA), ele criou o primeiro grupo de dança black de que se tem notícia no Nordeste: Os Invertebrados (1972).

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O apogeu

Uma das imagens mais impactantes de sua vida, em show de James Brown realizado em São Paulo. Foto: Penna Prearo (11/11/1978).

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Cultura de rua

Com seu grupo Funk & Cia, levou a dança dos salões para as ruas do centro de São Paulo, em 1983. Foto: Frank de Assis (1984).

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Do soul ao hip-hop

Para mostrar seu lado músico, atualmente finaliza seu álbum solo, com a banda Nhocuné Soul. Foto: Gilberto Yoshinaga (31/10/2009).

Depoimentos

Gerson King Combo

“Além de grande dançarino com estilo único, ele é a prova de solidariedade para com os irmãos e comunidades carentes; não é rico de 'money', mas sim rico em seu espírito alegre e solidário. Viva Nelson Triunfo, um dos poucos amigos da época com quem conservo grande amizade.”

Thaide

“Homem-Árvore, Black Bahia, ou Nelson Triunfo... Meu ídolo e amigo. Se na minha vida existe um herói dentro da cultura hip-hop, esse herói se chama Nelson Triunfo. Não tem outro!”

Zé Brown

“Ele é um mestre que representa a continuidade da luta do povo nordestino nos tempos atuais. Sua história através do soul e do hip-hop nos mostra que o povo nordestino e brasileiro é guerreiro e nunca desiste!”

Sobre o Autor

1. Jornalismo

Em 13 anos de jornalismo, quatro como correspondente no Japão, o autor já colaborou para publicações do Brasil e do Japão. Em 1998 e 1999, teve textos premiados em concursos da Academia Brasileira de Letras (ABL).

2. Hip-hop

Amante da cultura hip-hop desde os nove anos de idade, o autor já teve programa radiofônico de rap, colaborou para o portal Bocada Forte/Central Hip-Hop e realizou eventos do gênero.

3. Por que Nelson Triunfo?

“A ideia de biografar Nelson Triunfo surgiu em um sonho. Muito além de realizar esse sonho, registrar essa história foi uma missão que espero ter cumprido à altura do que o biografado merece e representa.”